O Sol é uma estrela típica
e representativo da maioria das estrelas. Pela
sua proximidade a
sua superfície pode ser observada detalhadamente. Seu estudo
constitui então em precioso subsídio para a
compreensão
das estrelas em geral.
O Sol tem um estrutura
interna com núcleo extremamente quente e sob um
envoltório
convectivo. Nem todas as estrelas tem esta estrutura, comum às
estrelas parecidas com nosso Sol ou ainda aquelas abaixo na Sequência
Principal1.
Muitas
características decorrem dessa estrutura particular. Em comum
elas tem ainda uma rotação mais lenta, cromosferas e
coroas, e por fim uma atividade magnética.
1 - Fotosfera
2 -
Cromosfera
3 - Vento Solar
1 -
Fotosfera
A
fotosfera é uma camada de apenas 500 Km de espessura,
que
emite quase metade da luminosidade solar concentrada na região
visível do espectro. Sua temperatura é de 5770 K. Nas
camadas internas o Sol é mais denso e opaco, portanto
invisível por fora. Nas camadas mais externas, graças
à
diminuição da densidade, a radiação se
propaga livremente. Na fotosfera portanto ocorre a
transição
do regime radiativo opaco ao transparente. O bordo do Sol parece
nítido porque a fotosfera é fina. A sua densidade
é
cerca 1015 partículas por cm3 ou 5 mil
vezes inferior à do ar que respiramos! Para nós a
fotosfera é a manifestação mais imediata do Sol.
A temperatura efetiva do Sol é definida a partir dos
parâmetros fotosféricos.
Fotografias não
deterioradas pela turbulência da atmosfera terrestre mostram
que a fotosfera não é homogênea. Ela é um
mosaico de granulações com diâmetro da ordem de
400 Km, denominadas de células de convecção,
figura 11. Cada granulação, que subtende
0,6” em média é uma coluna de convecção,
e sobrevive de 5 a 10 minutos. A parte central, na qual o gás
mais quente procedente do interior sobe, é mais brilhante.
Esse gás irradia e se esfria. Depois desce pelos bordos mais
escuros da coluna. A convecção ocorre no envelope solar
por causa da baixa temperatura que propicia a formação
do íon negativo H-, um átomo de
hidrogênio
com 2 elétrons, chamado de hidreto. Esse íon exarceba a
opacidade e debilita o transporte radiativo. Nessa circunstância
passa a operar o transporte convectivo.
Quando
se dispersa a luz fotosférica por meio de um prisma, tem-se a
impressão de que as cores do arco-íris se distribuem
continuamente. Utilizando-se espectroscópios com maior poder
de dispersão, percebe-se que o espectro solar é
recortado por dezenas de milhares de linhas escuras, conhecidas como Linhas
de Fraunhofer. Exemplo: o par de linhas
D do sódio
no amarelo. Trata-se de linhas de absorção. Sua
presença evidencia que uma camada de gás mais frio
envolve a atmosfera solar. As linhas permitem inferir a
composição
química do Sol. Quanto aos elementos pesados, a
composição
solar concorda com a da crosta terrestre.
O
brilho sobre o disco
fotosférico não é uniforme. Ele diminui no
bordo, fenômeno esse conhecido como obscurecimento do limbo.
A figura 2(1) apresenta o Sol fotografado na luz branca.
No bordo obscurecido o brilho das fáculas contrasta mais.
Há
também algumas manchas solares. O brilho observado num dado
ponto do disco resulta da adição de
contribuições
ao longo da linha de visada, mas não além do ponto em
que o meio torna-se opaco para o observador. A figura 3 ilustra que,
perto do bordo, a fotosfera torna-se opaca em camadas mais externas.
Elas são mais frias e menos brilhantes, pois, logo acima da
fotosfera, a temperatura decresce até 4150 K. No centro do
disco o observador consegue enxergar camadas mais profundas e mais
quentes.
Outro
fenômeno
fotosférico importante é o das manchas solares,
figura 4 (1). Elas são regiões permeadas por
intensos campos magnéticos com milhares de gauss (G). (Para
comparação: o campo magnético dos pólos
é
de 0,7 G). Técnicas observacionais tiram proveito do
desdobramento Zeeman de linhas espectrais (alargamento das linhas
espectrais por influência de fortes campos magnéticos),
e de sua polarização circular, para diagnosticar o
campo magnético longitudinal( paralelo à linha de
visada).
A
figura 5(1)
mostra que a parte central das manchas (umbra) é mais escura
que a periférica(penumbra). Nesta a matéria se move
radialmente para fora (efeito evershed). No bordo do disco nota-se
que as manchas são escavadas. As manchas são escuras
por serem 2000 K mais frias, possivelmente porque os fortes campos
magnéticos inibem o transporte convectivo. Uma mancha perdura
de uma semana até meses. Como ela permanece relativamente
imóvel na superfície do equador solar, prestasse ao
acompanhamento da rotação da fotosfera e à
determinação do equador solar. Como se vê na
figura 6(1) ( Observatórios do Monte Wilson e do
Palomar), a mancha se desloca de leste para oeste( da esquerda para
direita). À direita é mostrada a mesma mancha quando
reapareceu no bordo leste 16 dias após ter desaparecido no
bordo Oeste. O período sideral de rotação é
de 25 dias no equador e de 33 dias perto dos polos. O Sol não
gira, portanto, como um corpo sólido mas possui uma
rotação
diferencial em latitude. O plano equatorial do Sol forma um
ângulo
de 7,20 com a eclítica.
2 - Cromosfera
Nos
instantes de
totalidade de um eclipse solar, o brilhante disco fotosférico
fica oculto atrás do disco lunar. Pode-se então
perceber contra o fundo escuro do céu que, extremamente à
fotosfera, não há vácuo perfeito, mas um
tênue
atmosfera. A camada mais interna dessa atmosfera solar é a
Cromosfera. Sua espessura é de 10000 Km. Seu nome se deve
à
cor avermelhada, visível por breves segundos antes e depois da
totalidade de um eclipse. Essa coloração é
devida linha Halpha.
A primeira linha da série de Balmer, no espectro visível
do Hidrogênio. O espectro cromosférico do Sol revelou,
pela primeira vez, as linhas de um átomo então
desconhecido, o segundo elemento mais abundante do universo: o
Hélio.
A densidade na base da Cromosfera é de 1012
partículas por cm3 e, no topo, de 109cm-3.
A temperatura cresce da base para o topo, sendo de 15000 K o seu
valor típico. Vê-se portanto que a cromosfera não
pode ser aquecida pela radiação fotosférica. O
aquecimento tem origem na turbulência do envolope convectivo.
Essa turbulência excita ondas que, ao se propagarem para
regiões cada vez menos densas, amplificam-se em choques.
Choques dissipam-se facilmente, podendo assim aquecer a cromosfera.
Entidades
cromosféricas
podem ser vistas fora de eclipses. Embora transparentes em outros
comprimentos de onda do espectro visível, no comprimento de
linhas intensas tais como Halpha(6563
Å), K e CaII(3933 e3968,5 Å) são opacas e
detectáveis sobre o disco fotosférico. Suas formas
são
controladas por campos magnéticos. A Cromosfera aparece como
um mosaico de supergranulações com diâmetros de
30000 Km, conforme mostra a imagem obtida na luz do H
reproduzida na figura 6 (University Astronomy, J.M. Pasachoff e M.L.
Kutner, W.B. Saunders Co., Philadelphia, 1978). Cada
supergranulação
tem tempo de vida de meio. Amatéria tem movimento ascendente
na parte central, e descendente nos bordos. As
supergranulações
tomam parte no processo convectivo do envolope solar. A rede global
de supergranulações oscila coerentemente como um todo
com um período de aproximadamente 5 minutos. Os contornos das
supergranulaçòes são ocupados por uma
miríade
de entidades filamentares, quase verticais, denominadas espículos(
figura 7). Eles tem diâmetro médio de 700 Km, altura de
7000 Km, temperaturas cromosféricas, mas densidades maiores.
Assim, a Cromosfera não é uma concha homogênea,
mas possui uma estrutura complexa. É impressionante observar a
matéria fria da Cromosfera coexistindo lada a lado com a
matéria da Coroa, cuja temperatura é de milhões
de Kelvin. É o que acontece com as pontas dos espículos
mais altos. Acredita-se que os espículos canalizam a
matéria
ejetada ao meio interplentário na forma do vento solar.
Nos
locais onde há
manchas subjacentes a Cromosfera apresenta emissão mais
intensa nas Linhas H?
e do CaII formando as praias. Sua contrapartida na luz branca
são as fáculas (figura 2). O excesso de
emissão
cromosférica constitui diagnóstico indireto da
atividade magnética de outras estrelas.
Na
figura 8 (The
Cambridge Atlas of Astronomy, 1985, p.29), à esquerda aparece
uma imagem do Sol em H?.
À direita, imagem simultânea da Luz no CaII. As praias,
mais brilhantes, ficam sobre as manchas, o que pode ser verificado
comparando-se com a imagem da figura 2 que também é
simultânea.
Nas
proximidades de
praias surgem constantemente uma estruturas escuras e alongadas,
muito apropriadamente denominadas filamentos (figura 9). Eles
são relativamente estáveis, densos, e tem temperaturas
de
7000 K. Ficam sustentados no meio coronal mais rarefeito e quente,
por forças de origem magnética. Ocupam locais tais como
o topo de arcadas magnéticas. Na linha H a
emissão do próprio filamento fica fraca em face do
forte brilho fotosférico de fundo. Por isso o filamento parece
escuro. As proeminências vistas no bordo do disco
não
são outra coisa se não os mesmos filamentos. Observadas
contra o fundo do céu aparecem como formações
conspícuas. Imagens obtidas durante eclipses, confirmam que as
proeminências jazem no topo de arcadas magnéticas
debaixo de elmos magnéticos. É o que se pode ver na
figura 10( Physics of Solar Proeminênces, Eds. E. Jensen,
P.Maltby, F.Q. Orral, Institute of Theorical Astrophysis, Blinderm,
1978) que mostra a estrutura da Coroa observada no sul do Brasil no
eclipse de 12 de novembro de 1966.
Nota-se
claramente que as
proeminências no bordo estão associadas aos filamentos.
As proeminências que acabam de ser descritas são
usualmente designadas proeminências quiescentes, de longa vida,
que distinguim-se das proeminências eruptivas, de
duração
efêmera, associadas a explosões solares. A figura 11
(McMath – Hulbert observatory, University of Michigan) mostra a
proeminência eruptiva vista na linha K2 do CaII no dia 17 de
dezembro de 1937. A: 14h50,69m. B: 14h55,84m. C: 15h06,13m. D:
15h14,31m. F: 16h06,70m TU.
A
Cromosfera também
pode ser observada através de ondas de rádio com
comprimentos centimétricos e milimétricos. Quanto mais
curto é o comprimento de onda, mais profundas são as
camadas investigadas. Como as camadas mais externas são mais
quentes, o limbo observado nessas ondas de rádio apresenta
abrilhantamento em vez de obscurecimento.
Uma
camada delgada de
apenas 1000 Km em que a temperatura cresce muito, de 20 a 500 mil K
sobrepõe-se à Cromosfera. É a região de
transição entre a Cromosfera e a Coroa. Ela emite linha
de íons no extremo ultravioleta, detectáveis somente
por meio de sondas espaciais.
O
espectro da Coroa
contém linhas de emissão como a do FeXIV. A
presença
deste íon, que perdeu 13 dos seus 26 elétrons, indica
que a temperatura é da ordem de 1,5 milhões de K. O
hidrogênio já não se apresenta mais como unidade
atômica, pois o elétron destaca-se do próton. As
partículas constituintes são correntes elétricas
e o gás é designado plasma. Ele é um fluido
condutor de eletricidade que interage dinamicamente com o campo
magnético. A coroa se caracteriza pelo caráter
isostérmico decorrente da alta condutividade elétrica
de plasmas quentes.
A Coroa
não é
aquecida pela radiação fotosférica, mas pela
energia turbulenta do envelope convectivo trazidas por ondas de
alfvén ao longo de linhas de força do campo
magnético.
A
espessura da Coroa é
de dois raios fotosféricos. Seu brilho é um
milionésimo
do brilho fotosférico. Trata-se na maior parte, de luz
fotosférica espalhada por elétrons livres(espalhamento
Thomson). Pela medição dessa luz é possível
concluir que a densidade eletrônica é da ordem de 108
partículas por cm3. Imagem do eclipse de 31 de
julho de 1981 reproduzida na figura 12( The Cambridge Atlas of
Astronomy, 1985) mostra que a coroa também é bastante
estruturada. O campo magnético pode ser traçado
através
das variações de brilho porque os elétrons,
responsáveis pelo espalhamento da luz, deixam-se aprisionarem
estruturas magnéticas fechadas(garrafas magnéticas). O
Sol possui pólos magnéticos de onde emanam as plumas.
Na faixa equatorial aparecem estruturas tais como arcos, elmos e
flâmulas que são extensões das manchas
fotosféricas e das praias Cromosféricas. Atualmente
há
coronômetros a bordo de satélites que permitem observar
a coroa mesmo que não haja eclipse. Casualmente numa dessas
observações pode-se observar a queda de um cometa no
Sol.
Um
gás à
temperatura da Coroa emite termicamente em raios X. Imagens em raios
X revelam, de um lado, regiões brilhantes e, de outro
regiões
escuras, denominadas buracos coronais. A figura 13( Amercian Science
and Engineering, Inc., Cambridge, Massachusetts) mostra a Coroa vista
do Skylab em raios X a 1 junho de 1973. A parte escura é um
extenso buraco coronal onde a densidade eletrônica é
reduzida e as linhas do campo abrem-se para o meio
interplanetário.
Sem estarem aprisionados, os elétrons dos buracos coronais
acabam fluindo para fora, constituindo o vento solar. As partes mais
brilhantes tem arcos magnéticos fechados aprisionando
elétrons. Satélites tem medido a emissão coronal
de raios X em estrelas tardias da Sequência Principal. Quando a
emissão é fraca considera-se que os buracos coronais
predominam nas suas coroas.
A
emissão térmica
da Coroa também pode ser detectada em ondas de rádio
com comprimentos que variam de dezenas de centímetros à
vários metros. Ondas mais longas revelam as partes mais
externas, e vice-versa. Isso se deve a dois fatos: (i) para cada
densidade eletrônica corresponde um comprimento de onda acima
do qual a propagação é impossível. Esse
comprimento de onda é inversamente proporcional à raiz
quadrada de densidade eletrônica: (ii) a densidade
eletrônica
decresce quando se afasta do Sol. Radiomapas da Coroa mostram
abrilantamento nos bordos e são sensivelmente maiores que o
disco fotosférico.
3 - Vento Solar
A
existência do vento solar foi prevista teoricamente por Eugene
Parker em 1958. Segundo ele uma coroa isortérmica a 1,5
milhões K não se sujeitaria ao equilíbrio
hidrostático. Na sua viagem para Vênus a sonda Mariner
II confirmou essa predição. Não se sabe ainda
até onde o vento se expande. Por certo, até além
da órbita de Plutão, no meio interestelar, formando uma
gigantesca bolha ao redor do Sol denominada heliosfera. Seu tamanho
deve ser modulado pela atividade solar. Sendo magnetizada a
heliosfera dificulta a penetração de raios
cósmicos
no Sistema solar. Especialmente quando ocorre uma erupção
solar, quando o vento solar se intensifica reduzindo eficazmente a
penetração dos raios cósmicos na Terra. Essa
redução é o efeito Forbush.
O
vento, a rigor, é
um processo de perda de massa, mas tão diminuto que não
acarreta influência marcante na evolução do Sol.
O vento tem papel relevante na perda de momento angular durante a
Sequência Principal. É que o campo magnético atua
como prolongador do braço do torque. Assim que o sol e demais
estrelas tardias da Sequência Principal diminuem gradativamente
a sua rotação.
O vento
é mais
intenso nas épocas em que a atividade solar é
mínima
pois, então, os fortes campos das manchas são
inexistentes, reduzindo portanto os arcos magnéticos fechados.
O campo magnético polar, que é aberto, abrange uma
calota mais extensa, ficando a coroa confinada à região
equatorial. A figura 14 é uma representação
esquemática do escoamento do vento solar (setas largas) na
época de menor atividade solar. Os elétrons
aprisionados tendem a se concentrar na região equatorial. As
setas finas indicam a orientação do campo
magnético.
Já na época de máxima atividade o campo polar
fica restrito a uma calota pequena e os arcos fechados tornam-se
predominantes. A coroa se contrai e assume sensível simetria
circular.
1. Sequência
Principal:
Diagrama
criado para classificar as estrelas.
Texto: livre
tradução do Melissa Amorim do livro The
Cambridge Atlas of Astronomy, 1985
|